“Vida a dois”
Roteiro de Luis Lima
CENA 01
Um homem. Ele se chama EDVARD. Um
livro em suas mãos. Roupas de dormir, óculos de aro grosso e barba à fazer.
EDVARD
(olhando para o público com os olhos
por cima do livro que está em suas mãos)
Amanhece, amanhece,
amanhece, amanhece, amanhece o dia... Na aurora deste dia, descobri a decência
das lágrimas que se perdem no horizonte e termina por não se vê. E, nessas
descobertas, descobri a mim mesmo, um homem que procurava solidão na companhia
alheia... até o momento que encontrei minha mulher, Alma, e descobri o que é a
verdadeira solidão. O vazio profundo das palavras que se somam e acabam
novamente por dizerem nada.
(ele volta seus olhos
para o livro e Lê durante alguns segundos. ALMA entra em cena. Ela está com uma
sacola de compras nos braços. Enquanto ela passa por ele que está em uma
poltrona fala Sem parar para cumprimentar o marido)
ALMA
Bom dia, Edvard.
EDVARD (sem tirar os olhos do livro)
Oi.
ALMA
Que fez hoje, Edvard? (enquanto arruma
as compras em uma mesa)
EDVARD
Li esse livro aqui. E você?
ALMA
Sai com Carlos.
EDVARD (após pausa)
Foi bom?
ALMA (encosta-se na parede. Ela está
com uma faca nas mãos)
O dia nem tanto. Mas a noite...Tão bom
quanto o cantar. Violento e sem gosto. Senti minha pele descascar enquanto
fazíamos amor. Amor?
Fizemos algo que deveria ser amor, mas
era apenas vazio. O cantar da noite morta. Não há amor como o nosso, antes de desmoronar.
EDVARD (ainda com os olhos no livro)
Nosso amor não desmoronou Alma. Na
verdade Ele nunca existiu.
ALMA
Existiu.
EDVARD
Não existiu.
ALMA (soltando a faca ferozmente)
Existiu, sim!
EDVARD (neste momento ele se dirige a
ela)
Não, não existiu, Alma. E Vamos acabar
com essa conversa!
ALMA (aproximando-se da poltrona e
apoiando-se no braço da mesma)
Você não me ama mais?
(Edvard vira a página do livro.
CENA 02
(Alma vira-se para o público e deixa
Carlos avulso. Ela fala em tom de depoimento enquanto Carlos continua a ler seu
livro)
ALMA
Ele nunca mais foi o mesmo depois
daquele dia. Nosso amor se diluiu. Sobraram apenas os fragmentos amargos que
descem
pela garganta e hesitam em deslizar.Fragmentos
que incomodam, mas sem deixar cicatrizes.
(e um tom triste) A única cicatriz é o
amor perdido.
Nunca deveria ter feito o que fiz
aquele dia. Nunca deveria ter ido para a sacanagem... sacanagem não, para a
putaria daquela orgia de merda. (bebe algo que está em um copo ao lado do cinzeiro)
Pelo menos, não sem convidá-lo. (sorri) Pobre Edvard.
CENA 03
(Alma se deita no chão com um pano em
baixo formando uma cama. se cobre com um lençol. Carlos vai até a cama e também
se deita. Com a luz de dois abajures, um em cada lado, Edvard e Alma lêem
livros. Alma olha para Edvard. Edvard vira a página. Alma vira a página. Edvard
olha para Alma. Edvard coloca a mão sobre o seio direito de Alma e olha para ela,
fixamente. Alma vira a página do livro. A mão de Edvard no peito de Alma.
(neste momento só se escuta o folhear do livro de alma). Alma levantando-se,
quase sentada, fixa os olhos em Edvard.
EDVARD
Quer transar?
ALMA
Quero.
Edvard tira a camiseta e arreia as calças
até os pés . Alma deitada na cama com os lençóis sobre o corpo. Olha para Edvard,
que continua de pé, com as calças baixas.
ALMA
Que houve?
(pausa)
Que houve Edvard?
EDVARD (colocando as calças de volta)
Mudei de idéia. Não quero mais.
Edvard deita na cama e abre um livro.
Alma observa-o e vira-se desligando o seu abajur.
CENA 04 (Alma continua deitada
enquanto Edvard levanta e vai depor ao público.
EDVARD
(ele fala para o público da mesma forma
que alma fez anteriormente)
Ontem, na estação, vi um senhor de oitenta
anos. Ele tinha cabelos brancos como papel, olhos azuis. Ele bebia um refresco.
Estava recostado na murada. Os dedos dos pés se remexiam na sandália. Quando o
trem chegou, ele não entrou. Continuou lá, recostado na murada. Através do
vidro, vi seu rosto. Olhei seus olhos. Ele parecia estar se esforçando para
lembrar de algo. (bebe um gole) Eu acho que se esforçava para lembrar seus sonhos.
CENA 05 –
Telefone toca. Alma atende, desliga e
fala para Edvard:
Alma
Seu tio Morreu
Edvard:
Que tio? Tá louca?
Alma:
O seu Tio Gerardo, ô Babaca.
Edvard:
Mas como? Como ele morreu? Quando foi
isso?
Alma:
Foi ontem, cedinho.
(Alma se deita ao lado de Edvard e
começa a encenar a morte do tio dele. Agonizando, Segura a mão de Edvard com
força)
Alma
Continue o meu trabalho e vingue minha
morte, Edvard. (Cai morto).
(Edvard se desespera e fica em pânico.
Totalmente desconsolado.
Até que para, alma levanta e comenta
com ele)
Alma
"Para avaliar a importância real
de uma pessoa, devemos pensar nos efeitos que sua morte produziria."
(François Gaston de Levis)
EDVARD
Mas meu tio morreu de um caso de engasgo.
Como vingarei sua morte? E além do mais ele era um vagabundo. como continuarei
seu trabalho?
ALMA (levantando-se)
Afinal... nda mais fácil que
morer. Qualquer um pode morrer sem precisar de dinheiro ou sabedoria. "A
morte é uma das poucas coisas que podem ser feitas simplesmente
deitando-se." (Woody Allen). Mas saiba que quem não enterra seus mortos,
vive com eles.
EDVARD
A vida é cruel com os mortos, pois...
pois ela continua.
(eles trocam frases sobre morte de
forma seqüenciada)
Alma(impar) Edvard (Par)
- "Morrer,
só se morre só. O moribundo se isola numa redoma de vidro, ele e a sua
agonia. Nada ajuda nem acompanha." (Rachel de Queiroz)
2.
"Morrer
é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada." (Fernando Pessoa)
3.
"Morrer
é uma arte, como tudo o mais. Que eu pratico surpreendentemente bem."
(Sylvia Plath)
4.
"Se a morte fosse um bem, os deuses não
seriam imortais." (Safo de Lesbos)
5.
"É
uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde."
(Clarice Lispector)
6.
"O
homem não morre quando deixa de viver, mas sim quando deixa de amar." (Charles
Chaplin)
7.
A
vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a
junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace. (Victor Hugo)
8.
Se
quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte. (Sigmund Freud)
11. Se vale a pena viver, e se a morte faz
parte da vida, então, morrer também vale a pena... Immanuel Kant
Edvard Falando ao
público
Isso é a nossa morte. O ruim da morte
alheia é que a nossa vida continua.
Amor e
morte são condições da vida, e se equilibram, formando os dois pólos, as duas
extremidades da existência, e ao seu redor giram todas as suas manifestações.
Amor e
morte, o nascer e o morrer, é o maior jogo de dados que conhecemos; ansiosos, interessados, agitados assistimos a
cada partida, porque a nossos olhos tudo se resume nisso.
(Pausa dramática.)
Alma
E se esse mundo for o inferno de outro
planeta?
EDVARD
Não. O mundo é o que você faz dele,
e...
ALMA (sem deixar Edvard Terminar)
Quer transar?
Os dois se agarram e as luzes vão
baixando
Fim