“Choro de Sertão” - Roteiro para Filme (super curta de 2min)


“Choro de Sertão”

Roteiro de Luis Carlos Lima

FADE IN:
CENA 1 – EXT. CASEBRE - DIA
SILÊNCIO. Um HOMEM de aparência humilde, roupas surradas e um rosto sofrido. Está parado sozinho do lado de fora de um casebre. Ele está com uma enxada nas mãos. Olha para a imensidão de terra à sua volta, assolada pela seca, sob um sol escaldante, olha para o céu. O sol forte lhe ofusca a vista, e ele fecha os olhos.

·         HOMEM (VOZ OFF)
Dizem que homem não chora. Mas São José é homem e tem que chorar.

CENA 2 – EXT. CASEBRE – DIA – FLASHBACK
O mesmo HOMEM, mais jovem.

·         HOMEM (Menino)
Vai ver, ele fica com vergonha de
chorar na nossa frente. Por isso é
que demora tanto para chorar por aqui.
Ah, mas se São José fosse mulher, eu acho que ele não tinha vergonha de chorar na nossa frente. De chorar em cima da gente, do lado da gente, embaixo da gente.
A cena volta para ele velho, caminhando pelo serrado
·         HOMEM
Mas a gente, que é homem daqui da terra, sente vontade de chorar. Para ver se o nosso choro chama o dele. Para ver
se ele escuta as nossas lágrimas no lugar em que estiver. Mas meu choro não tem tanto poder.

(caindo de joelhos ao chão)
Então eu rezo... rezo pra que ele chore.
Ele abre um pouco os braços, fechando os olhos, como se
estivesse meditando.

HOMEM
Para que ele chova em cima de mim.
O homem abre os olhos e olha para a caatinga à sua
frente.

Gritando para o céu
São José!!! Eu queria hoje ser o senhor, só por um dia. Pra poder chorar em cima dos meus menino, da minha mulher... do meu roçado. Mas eu queria que só nesse pedaço de tempo meu choro não trouxesse o desespero deles. Por que hoje o único choro pode me trazer alegria é o teu.
O homem se levanta e segue andando. A câmera parada até ele ser desfocado.
Cai uma gota d’água sobre o solo que o homem estava prostrado.

FIM

“Vida a dois” - Roteiro para Teatro (esquete de 20min)


“Vida a dois”
Roteiro de Luis Lima

CENA 01
Um homem. Ele se chama EDVARD. Um livro em suas mãos. Roupas de dormir, óculos de aro grosso e barba à fazer.

EDVARD
(olhando para o público com os olhos por cima do livro que está em suas mãos)

Amanhece, amanhece, amanhece, amanhece, amanhece o dia... Na aurora deste dia, descobri a decência das lágrimas que se perdem no horizonte e termina por não se vê. E, nessas descobertas, descobri a mim mesmo, um homem que procurava solidão na companhia alheia... até o momento que encontrei minha mulher, Alma, e descobri o que é a verdadeira solidão. O vazio profundo das palavras que se somam e acabam novamente por dizerem nada.

(ele volta seus olhos para o livro e Lê durante alguns segundos. ALMA entra em cena. Ela está com uma sacola de compras nos braços. Enquanto ela passa por ele que está em uma poltrona fala Sem parar para cumprimentar o marido)

ALMA
Bom dia, Edvard.

EDVARD (sem tirar os olhos do livro)
Oi.

ALMA
Que fez hoje, Edvard? (enquanto arruma as compras em uma mesa)

EDVARD
Li esse livro aqui. E você?

ALMA
Sai com Carlos.

EDVARD (após pausa)
Foi bom?


ALMA (encosta-se na parede. Ela está com uma faca nas mãos)

O dia nem tanto. Mas a noite...Tão bom quanto o cantar. Violento e sem gosto. Senti minha pele descascar enquanto fazíamos amor. Amor?
Fizemos algo que deveria ser amor, mas era apenas vazio. O cantar da noite morta. Não há amor como o nosso, antes de desmoronar.

EDVARD (ainda com os olhos no livro)
Nosso amor não desmoronou Alma. Na verdade Ele nunca existiu.

ALMA
Existiu.

EDVARD
Não existiu.

ALMA (soltando a faca ferozmente)
Existiu, sim!

EDVARD (neste momento ele se dirige a ela)
Não, não existiu, Alma. E Vamos acabar com essa conversa!

ALMA (aproximando-se da poltrona e apoiando-se no braço da mesma)
Você não me ama mais?

(Edvard vira a página do livro.

CENA 02
(Alma vira-se para o público e deixa Carlos avulso. Ela fala em tom de depoimento enquanto Carlos continua a ler seu livro)

ALMA
Ele nunca mais foi o mesmo depois daquele dia. Nosso amor se diluiu. Sobraram apenas os fragmentos amargos que descem
pela garganta e hesitam em deslizar.Fragmentos que incomodam, mas sem deixar cicatrizes.
(e um tom triste) A única cicatriz é o amor perdido.
Nunca deveria ter feito o que fiz aquele dia. Nunca deveria ter ido para a sacanagem... sacanagem não, para a putaria daquela orgia de merda. (bebe algo que está em um copo ao lado do cinzeiro) Pelo menos, não sem convidá-lo. (sorri) Pobre Edvard.

CENA 03
(Alma se deita no chão com um pano em baixo formando uma cama. se cobre com um lençol. Carlos vai até a cama e também se deita. Com a luz de dois abajures, um em cada lado, Edvard e Alma lêem livros. Alma olha para Edvard. Edvard vira a página. Alma vira a página. Edvard olha para Alma. Edvard coloca a mão sobre o seio direito de Alma e olha para ela, fixamente. Alma vira a página do livro. A mão de Edvard no peito de Alma. (neste momento só se escuta o folhear do livro de alma). Alma levantando-se, quase sentada, fixa os olhos em Edvard.

EDVARD
Quer transar?

ALMA
Quero.

Edvard tira a camiseta e arreia as calças até os pés . Alma deitada na cama com os lençóis sobre o corpo. Olha para Edvard, que continua de pé, com as calças baixas.


ALMA
Que houve?
(pausa)
Que houve Edvard?

EDVARD (colocando as calças de volta)
Mudei de idéia. Não quero mais.

Edvard deita na cama e abre um livro. Alma observa-o e vira-se desligando o seu abajur.

CENA 04 (Alma continua deitada enquanto Edvard levanta e vai depor ao público.

EDVARD
(ele fala para o público da mesma forma que alma fez anteriormente)
Ontem, na estação, vi um senhor de oitenta anos. Ele tinha cabelos brancos como papel, olhos azuis. Ele bebia um refresco. Estava recostado na murada. Os dedos dos pés se remexiam na sandália. Quando o trem chegou, ele não entrou. Continuou lá, recostado na murada. Através do vidro, vi seu rosto. Olhei seus olhos. Ele parecia estar se esforçando para lembrar de algo. (bebe um gole) Eu acho que se esforçava para lembrar seus sonhos.


CENA 05 –
Telefone toca. Alma atende, desliga e fala para Edvard:

Alma
Seu tio Morreu

Edvard:
Que tio? Tá louca?

Alma:
O seu Tio Gerardo, ô Babaca.

Edvard:
Mas como? Como ele morreu? Quando foi isso?

Alma:
Foi ontem, cedinho.

(Alma se deita ao lado de Edvard e começa a encenar a morte do tio dele. Agonizando, Segura a mão de Edvard com força)

Alma
Continue o meu trabalho e vingue minha morte, Edvard. (Cai morto).

(Edvard se desespera e fica em pânico. Totalmente desconsolado.
Até que para, alma levanta e comenta com ele)

Alma
"Para avaliar a importância real de uma pessoa, devemos pensar nos efeitos que sua morte produziria." (François Gaston de Levis)

EDVARD
Mas meu tio morreu de um caso de engasgo. Como vingarei sua morte? E além do mais ele era um vagabundo. como continuarei seu trabalho?

ALMA (levantando-se)
Afinal... nda mais fácil que morer. Qualquer um pode morrer sem precisar de dinheiro ou sabedoria. "A morte é uma das poucas coisas que podem ser feitas simplesmente deitando-se." (Woody Allen). Mas saiba que quem não enterra seus mortos, vive com eles.
EDVARD
A vida é cruel com os mortos, pois... pois ela continua.

(eles trocam frases sobre morte de forma seqüenciada)

Alma(impar) Edvard (Par)

  1. "Morrer, só se morre só. O moribundo se isola numa redoma de vidro, ele e a sua agonia. Nada ajuda nem acompanha." (Rachel de Queiroz)
2.    "Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada." (Fernando Pessoa)
3.    "Morrer é uma arte, como tudo o mais. Que eu pratico surpreendentemente bem." (Sylvia Plath)
4.     "Se a morte fosse um bem, os deuses não seriam imortais." (Safo de Lesbos)
5.    "É uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde."
(Clarice Lispector)
6.    "O homem não morre quando deixa de viver, mas sim quando deixa de amar." (Charles Chaplin)
7.    A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace. (Victor Hugo)
8.    Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte. (Sigmund Freud)
9.    Quem não tem medo da vida também não tem medo da morte. (Arthur Schopenhaue)
10. O que devo temer se não temo a morte?Friedrich Schiller
11. Se vale a pena viver, e se a morte faz parte da vida, então, morrer também vale a pena... Immanuel Kant

Edvard Falando ao público
Isso é a nossa morte. O ruim da morte alheia é que a nossa vida continua.
Amor e morte são condições da vida, e se equilibram, formando os dois pólos, as duas extremidades da existência, e ao seu redor giram todas as suas manifestações.
Amor e morte, o nascer e o morrer, é o maior jogo de dados que conhecemos;  ansiosos, interessados, agitados assistimos a cada partida, porque a nossos olhos tudo se resume nisso.

(Pausa dramática.)

Alma
E se esse mundo for o inferno de outro planeta?

EDVARD
Não. O mundo é o que você faz dele, e...

ALMA (sem deixar Edvard Terminar)
Quer transar?

Os dois se agarram e as luzes vão baixando


Fim